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“A Odisseia”, de Christopher Nolan, adapta com precisão a essência do poema de Homero para o cinema
CRÍTICA · CINEMA

“A Odisseia”, de Christopher Nolan, adapta com precisão a essência do poema de Homero para o cinema

Depois de demonstrar com “Oppenheimer” que é capaz de transformar um drama histórico introspectivo em um fenômeno cinematográfico de proporções monumentais, Christopher Nolan volta a equilibrar espetáculo e densidade dramática em “A Odisseia”. Ao adaptar o poema de Homero, o diretor não se limita a encenar uma sucessão de feitos heroicos nem a explorar o potencial visual de uma das maiores aventuras da literatura. Ele utiliza a jornada de Odisseu para investigar o significado de voltar para casa depois de ser transformado pela guerra. O resultado é ambicioso, embora nem sempre sustente essa proposta com a mesma força do início ao fim.

O conflito central do filme não está nas criaturas míticas nem na fúria dos deuses, mas no acerto de contas de Odisseu com as próprias escolhas. Cada ilha e cada provação funcionam menos como obstáculos físicos e mais como lembranças do preço da guerra. A proposta é coerente, mas Nolan insiste nela com tanta frequência, repetindo variações da mesma ideia ao longo da narrativa, que a segunda metade passa a soar redundante, como se o diretor desconfiasse da capacidade do espectador de compreender seu argumento sem constantes reforços.

Matt Damon evita transformar Odisseu em um herói inalcançável. Sua atuação privilegia silêncios, olhares e hesitações, revelando um homem cuja maior batalha acontece longe dos campos de guerra. A inteligência e a capacidade estratégica continuam sendo suas principais armas, mas Damon deixa claro que elas pouco resolvem diante do peso emocional que o personagem carrega. O resultado é um protagonista convincente e humano.

A narrativa abandona a linearidade convencional. Nolan fragmenta o tempo, alternando momentos da jornada e costurando lembranças, relatos e acontecimentos simultâneos. A montagem de Jennifer Lame mantém a clareza dentro dessa estrutura complexa, fazendo com que a desorientação de Odisseu alcance o público sem comprometer a fluidez. É um recurso já conhecido na filmografia do diretor, mas que aqui funciona porque está a serviço da história, e não apenas do estilo.

Enquanto Odisseu enfrenta o mar, Ítaca se transforma em um campo de disputa silencioso. Convencidos de que o rei não retornará, os pretendentes ocupam o palácio e corroem, pouco a pouco, a estabilidade da família que ele deixou. Robert Pattinson interpreta Antinous com uma crueldade calculada, tornando o personagem menos um vilão impulsivo e mais a personificação da ambição que prospera na ausência de um poder legítimo. Ao alternar essa linha narrativa com a viagem de Odisseu, Nolan dá peso a cada desvio da travessia. A casa deixa de ser apenas o destino final e passa a representar algo que pode desaparecer antes mesmo da volta do herói.

É nesse contraste entre ausência e permanência que Anne Hathaway e Tom Holland encontram espaço para desenvolver seus personagens. Hathaway constrói uma Penélope cuja serenidade esconde um estado permanente de vigilância. Ela resiste pela inteligência e pela capacidade de ganhar tempo, e não pela força. Holland traduz o conflito de um jovem Telemachus obrigado a amadurecer sob o peso de um legado que conhece apenas por histórias. Ainda assim, entre os muitos personagens que cruzam o caminho de Odisseu, boa parte das figuras femininas, com exceção de Penélope, recebe pouco desenvolvimento. Elas surgem, cumprem uma função narrativa e deixam a história sem adquirir maior profundidade, o que contrasta com o cuidado dedicado ao protagonista.

Christopher Nolan trata a mitologia menos como um espetáculo de fantasia e mais como um instrumento para investigar decisões humanas. As divindades influenciam os acontecimentos, mas não anulam o peso das escolhas feitas pelos homens. É uma ideia que o filme sustenta de maneira consistente. Ainda assim, a repetição desse eixo dramático ao longo da narrativa reduz parte de seu impacto. O espectador compreende o argumento muito antes do terceiro ato, mas o roteiro continua insistindo nele.

Tecnicamente, o filme impressiona. Registrado em IMAX pelas lentes de Hoyte van Hoytema, alcança uma escala visual marcante sem recorrer ao artificialismo comum em muitos épicos contemporâneos. As paisagens naturais, a materialidade dos cenários e o desgaste dos figurinos conferem à Grécia Antiga uma presença física convincente.

As cenas de ação, por outro lado, representam o aspecto mais irregular da produção. Naufrágios e tempestades funcionam muito bem, apoiados por efeitos práticos, fotografia e desenho de som que fazem o espectador sentir o impacto de cada momento. Já os combates corpo a corpo, especialmente na batalha final, revelam uma limitação recorrente de Nolan. A coreografia de luta não alcança o mesmo nível de precisão do restante da produção. O contraste chama atenção dentro de um filme tão sólido em seus aspectos técnicos e reforça uma fragilidade já percebida em trabalhos anteriores do diretor.

A trilha sonora de Ludwig Göransson contribui de forma decisiva para a atmosfera do filme, funcionando como uma extensão da tormenta que envolve Odisseu, e não apenas como acompanhamento da ação. A composição cresce de forma quase contínua e acumula tensão em sintonia com o desenho sonoro característico do cinema de Nolan.

Assim como em “Oppenheimer”, Nolan demonstra menos interesse pela glória conquistada pelo protagonista do que pelas consequências que ela produz. A vitória em Troia não representa um ponto de chegada, mas o início de um longo desgaste moral. Ao revisitar um dos maiores mitos da tradição ocidental, o diretor questiona como a História transforma homens complexos em lendas, preservando seus feitos e silenciando o preço humano pago por eles. É uma leitura interessante, embora o filme a reforce mais vezes do que o necessário.

No fim, “A Odisseia” reúne méritos evidentes, como a atuação de Matt Damon, a estrutura fragmentada da narrativa, a fotografia em IMAX e a força das sequências de tempestade e naufrágio. Ao mesmo tempo, apresenta problemas claros, como a coreografia de luta abaixo do restante da produção, o pouco desenvolvimento de parte das personagens femininas e a insistência em reforçar uma ideia que já havia sido plenamente compreendida. É um épico ambicioso e, na maior parte do tempo, bem-sucedido, mas que seria ainda mais eficiente se confiasse mais na inteligência do espectador e menos na necessidade de reafirmar seu principal argumento.