Provavelmente, “Michael”, dirigido por Antoine Fuqua, nasce já sob um peso incomum, o de ser, talvez, a cinebiografia mais aguardada da história recente. O cinema há décadas revisita figuras públicas, algumas celebradas, outras esquecidas, mas poucas carregam a dimensão mítica de Michael Jackson. Se houvesse uma consulta popular sobre quem merecia ter sua vida levada às telas, seu nome dificilmente ficaria de fora. Agora, esse momento enfim se concretiza. A proposta de Fuqua é ambiciosa na medida certa, condensar uma trajetória monumental em um recorte narrativo coeso, centrado não apenas no ícone, mas no homem por trás da imagem. E, apesar da longa gestação, o filme encontra força justamente onde mais importa, nas atuações, especialmente na entrega surpreendente de Jaafar Jackson, na reconstrução visual cuidadosa e em um repertório musical que, longe de depender da nostalgia, reafirma sua permanência cultural.
Há, no entanto, uma camada inevitável de especulação que paira sobre o filme, não exatamente sobre o que ele é, mas sobre o que poderia ter sido. O projeto concebido por Antoine Fuqua, ao lado do roteirista John Logan e do produtor Graham King, passou por mudanças estruturais significativas, especialmente em seu terceiro ato, reconfigurado após entraves legais envolvendo o espólio de Michael Jackson. O adiamento do lançamento em um ano não foi apenas estratégico, mas sintomático de um reposicionamento criativo. O que antes parecia caminhar para um panorama mais amplo da carreira do artista acaba se estreitando em um conflito mais íntimo e familiar. O foco recai, então, na relação entre Michael, interpretado por Jaafar Jackson, e seu pai, Joe, vivido por Colman Domingo, transformando a narrativa em uma história de emancipação sob a sombra de um controle rígido. É um eixo dramático carregado de potencial, mas que se aproxima perigosamente de convenções já exaustivamente exploradas pelo cinema biográfico hollywoodiano.
A narrativa retorna a 1965 para estabelecer as bases de uma trajetória marcada tanto pelo talento quanto pela rigidez familiar. Nesse ponto, Joe Jackson surge como uma figura central, operário da indústria siderúrgica e aspirante a empresário musical que enxerga nos filhos, então conhecidos como Jackson 5, uma oportunidade concreta de ascensão. Entre eles, o destaque inevitável é Michael, vivido aqui por Juliano Krue Valdi com notável precisão, já evidenciando um carisma fora do comum. No entanto, essa descoberta vem acompanhada de um ambiente doméstico opressivo, onde a disciplina imposta por Joe ultrapassa limites, recorrendo à violência como método de controle. Diante disso, os irmãos mais velhos permanecem paralisados pelo medo, enquanto Katherine Jackson, interpretada por Nia Long, apesar de sua postura mais afetuosa, pouco consegue fazer para conter a severidade do marido, delineando assim um núcleo familiar tão determinante quanto inquietante.
Ao se afastar momentaneamente do eixo dramático principal, o filme promove um salto de cerca de uma década e passa a acompanhar Michael Jackson no início de sua trajetória solo. A partir daí, a narrativa assume uma cadência fragmentada, estruturando-se quase como uma sucessão de vinhetas, cenas breves que se encadeiam por meio de elipses convenientes, comprimindo o tempo e priorizando momentos emblemáticos em detrimento de uma progressão mais orgânica. Quando “Michael” de fato captura a atenção, isso se deve, em grande parte, ao magnetismo natural de Jaafar Jackson em cena e a decisões de encenação particularmente inspiradas de Antoine Fuqua, sobretudo no uso expressivo de closes, que aproximam o espectador da intimidade do artista.
Há momentos em que o filme encontra uma energia quase elétrica, como na recriação do processo por trás de Beat It, quando Michael reúne integrantes de gangues rivais de Los Angeles, Crips e Bloods, em uma tentativa de canalizar tensões para a dança. A sequência funciona como uma rara e fascinante janela para seu método criativo. Esse mesmo vigor se repete em passagens dedicadas à gravação de Thriller, seja no estúdio ou no palco, onde Jaafar demonstra um domínio cênico impressionante. Ainda assim, o mérito não recai apenas sobre ele, pois o elenco ao redor acompanha esse nível de entrega, sustentando o filme mesmo em seus momentos mais irregulares.
As interpretações de Colman Domingo e Nia Long carregam uma densidade admirável, tentando conferir nuances a um arco dramático que o cinema já revisitou inúmeras vezes. Ainda assim, esse esforço esbarra na própria construção de Michael Jackson dentro do filme, uma figura apresentada de forma quase etérea, infantilizada e desprovida de sexualidade, cuja excentricidade raramente é confrontada por aqueles ao seu redor. Mesmo atitudes que poderiam gerar maior estranhamento, como a convivência com o chimpanzé Bubbles ou a presença de animais exóticos em seu espaço íntimo, são tratadas com complacência, enquadradas como manifestações de uma carência afetiva profunda. Nesse contexto, o longa insiste em reforçar sua ligação simbólica com Peter Pan, conduzindo a narrativa para a fantasia de Neverland como refúgio emocional, ainda que isso reduza a complexidade do personagem a uma leitura excessivamente confortável.
O isolamento de Michael Jackson é levado a tal extremo que o filme praticamente apaga qualquer traço de convivência social mais ampla, como se sua trajetória tivesse se desenrolado à margem de relações significativas, inclusive com figuras célebres como Elizabeth Taylor e Diana Ross, curiosamente ausentes dessa reconstrução. Em vez disso, a narrativa concentra sua intimidade em um único elo, o chefe de segurança Bill Bray, interpretado por KeiLyn Durrell Jones, que assume o papel de confidente e escuta constante até os momentos finais. Essa escolha de foco, no entanto, levanta lacunas difíceis de ignorar, sobretudo pela ausência de Janet Jackson, presença fundamental em sua vida cotidiana à época, dividindo o mesmo espaço familiar por anos. Diante dessas omissões, o filme acaba provocando uma sensação curiosa, a de que os bastidores de sua própria produção talvez revelassem um drama tão ou mais instigante do que aquele efetivamente apresentado na tela.
É inegável que a trajetória de Michael Jackson renderia inúmeras camadas de análise, algo que o próprio filme parece reconhecer, ainda que não consiga dar conta plenamente. Ao longo da narrativa, momentos cruciais para a construção de sua identidade artística são deixados de lado, incluindo colaborações fundamentais com Quincy Jones, que surgem quase como um adendo tardio, sem o peso que mereceriam. É claro que toda cinebiografia exige recortes e renúncias, mas aqui essas ausências se tornam mais perceptíveis à medida que o impacto inicial se dissipa. Quando o encanto dos enquadramentos sofisticados de Dion Beebe e o rigor das recriações de época começam a perder força, o que resta é uma narrativa que, gradualmente, se alonga além do necessário e revela um certo esgotamento estrutural.
Há também um silêncio eloquente em torno das controvérsias que marcaram a vida de Michael Jackson, temas amplamente explorados em documentários e reportagens, mas aqui completamente ausentes, como se não fizessem parte dessa narrativa, talvez reservados para uma eventual continuação insinuada nos créditos. Em vez disso, o filme opta por cristalizar uma imagem mais confortável, a de um astro ferido por uma infância interrompida, cuja generosidade se manifesta em gestos afetuosos, como visitas a crianças hospitalizadas. É uma escolha que simplifica um personagem notoriamente complexo, deixando de lado um contraponto que poderia enriquecer o retrato. Ainda assim, para quem busca revisitar a aura quase mítica de Jackson, a combinação entre a performance de Jaafar, a condução de Antoine Fuqua e a força de um catálogo musical atemporal cumpre seu papel, ao menos o suficiente para, por alguns instantes, fazer o espectador se entregar à nostalgia e relegar ao fundo aquilo que o filme prefere não encarar.