Duas décadas depois de se firmar como uma comédia de estúdio eficiente, sustentada em grande parte pela presença de Meryl Streep, O Diabo Veste Prada retorna sob a direção de David Frankel. À primeira vista, a continuação parece interessada em repetir a mesma fórmula. Mas O Diabo Veste Prada 2 amplia seu escopo ao combinar o humor do original com uma leitura mais direta do presente, um ambiente moldado por tendências rápidas, pela lógica das redes e por sinais de desgaste no sistema. Ainda assim, Miranda Priestly segue como o eixo do filme, capaz de dar forma e sentido até ao que parece passageiro.
Longe da Runway, Andrea “Andy” Sachs, novamente vivida por Anne Hathaway, construiu uma carreira sólida no jornalismo. O filme introduz essa nova fase com ironia. No momento em que recebe reconhecimento por seu trabalho, ela também enfrenta a demissão em massa em sua redação. Ao mesmo tempo, Miranda lida com uma crise na revista após um erro editorial que expõe contradições no setor da moda e abala a confiança de anunciantes. É nesse contexto que Andy retorna ao universo que havia deixado, agora em uma posição de maior responsabilidade, obrigada a encarar novamente o peso e o custo de trabalhar ao lado de Miranda.
Miranda reage ao reencontro com um gesto calculado, fingindo não reconhecer Andy. Mas a antiga assistente já não é a mesma. Mais experiente e segura, ela volta consciente do ambiente que a cerca, embora ainda sinta o impacto da presença da chefe. A dinâmica se intensifica com o retorno de Emily Charlton, interpretada por Emily Blunt, agora em posição de poder e claramente incomodada com a reentrada de Andy. Entre encontros com marcas como a Dior e disputas discretas por espaço, o filme mostra um meio movido tanto por ambição quanto pelo receio constante de perder relevância.
A demora para uma continuação sempre levantou dúvidas. Entre a 20th Century Fox e, depois, a Walt Disney Studios, a explicação parece menos industrial e mais criativa. Trata-se de encontrar uma história que justificasse o retorno. O roteiro de Aline Brosh McKenna sustenta bem essa retomada, embora tropece ao incluir um interesse amoroso pouco convincente para Andy, vivido por Patrick Brammall.
O filme também evita idealizar o passado. Miranda e Nigel (Stanley Tucci), já operam dentro de uma lógica digital, guiada por métricas e visibilidade. Andy, por sua vez, precisa se adaptar rapidamente a esse modelo, sob risco de se tornar irrelevante. A entrada de Benji Barnes, personagem de Justin Theroux, amplia esse cenário ao trazer uma visão externa, ligada a capital e inovação, que pressiona ainda mais esse sistema.
A tecnologia atravessa o filme sem dominar a narrativa. A inteligência artificial aparece como um fator inevitável, afetando diferentes áreas, mas sem transformar a história em um alerta direto. O peso desse tema é equilibrado pelas atuações de Hathaway, Streep e Tucci, que tratam essa transição com naturalidade. A comparação feita por Benji, ao descrever essa mudança como uma força capaz de varrer o que existe, resume o tom. Não há surpresa, apenas a consciência de que tudo está mudando. O que resta aos personagens é tentar preservar algum traço humano nesse processo.
A ambição temática poderia comprometer o tom leve esperado de uma comédia, mas o filme encontra equilíbrio. Ele sustenta suas ideias com elementos que mantêm o interesse, como desfiles, participações pontuais e um elenco consistente. A presença de Simone Ashley e Kenneth Branagh reforça esse conjunto e contribui para uma narrativa envolvente.
Na direção, Frankel, ao lado de McKenna e do montador Andrew Marcus, imprime um ritmo acelerado na primeira metade. Esse fôlego diminui um pouco no final, mesmo com a participação de Lady Gaga, mas o filme segue funcional. O humor não é tão constante quanto no original, mas há uma tentativa de alcançar um impacto emocional maior. Algumas escolhas de elenco, influenciadas por tendências atuais, destoam do conjunto, mas o núcleo principal se sustenta. A química entre Blunt, Streep, Hathaway e Tucci mantém o filme em movimento, com momentos de destaque alternados entre eles.
Não há garantia de uma nova continuação, mas este segundo filme já se justifica. Funciona tanto como extensão quanto como obra independente, apoiada no reencontro com seus personagens. Em alguns momentos, sugere até um avanço em relação ao primeiro. Fica a questão de como será visto no futuro. Em um cenário em que até a crítica enfrenta incertezas, talvez o principal mérito de Frankel seja manter, mesmo dentro dessas mudanças, um olhar atento ao elemento humano.