Poucas séries carregam um legado tão delicado quanto “Toy Story”. A cada novo capítulo, a pergunta inevitável não é apenas o que acontecerá com seus personagens, mas por que essa história precisa continuar sendo contada. Depois de encerrar um ciclo emocionalmente completo e de prolongá-lo com uma despedida que dividiu opiniões, a franquia retorna agora sob a direção de Andrew Stanton enfrentando um desafio diferente: compreender uma geração de crianças que cresce cercada por telas, algoritmos e distrações digitais. Em vez de apenas revisitar a nostalgia que a tornou um marco da animação, “Toy Story 5” procura observar como o significado do brincar está sendo transformado em um mundo cada vez mais conectado.
Dessa vez, a narrativa encontra seu centro em Jessie (Joan Cusack). Com Woody (Tom Hanks) distante desde os acontecimentos do filme anterior, cabe à vaqueira assumir a responsabilidade de manter o grupo unido dentro do quarto de Bonnie (Scarlett Spears). A tarefa se torna cada vez mais difícil quando a menina passa a dedicar quase toda a sua atenção a Lily (Greta Lee), um dispositivo interativo capaz de oferecer estímulos constantes e respostas imediatas. O que inicialmente parece apenas mais uma fase infantil logo se transforma em uma ameaça à própria razão de existir daqueles brinquedos. Conforme a presença da novidade digital cresce, velhas inseguranças retornam e forçam Jessie e seus companheiros, incluindo Buzz Lightyear (Tim Allen), a confrontar uma pergunta incômoda: ainda existe espaço para eles em uma infância mediada por telas? É justamente esse conflito que acaba cruzando novamente o caminho de Woody com o de seus antigos amigos.
O mérito do roteiro de Andrew Stanton e Kenna Harris está em não transformar essa mudança em um conflito simplista entre o velho e o novo. Lily não é apresentada como uma antagonista tradicional, nem a tecnologia surge como uma ameaça à infância. O que o filme explora é algo mais complexo: a sensação de deslocamento vivida por Woody, Buzz Lightyear, Jessie e os demais brinquedos ao perceberem que já não ocupam o mesmo espaço emocional na vida de Bonnie. Enquanto eles acreditam estar ajudando a garota a criar conexões reais, Lily oferece um caminho mais rápido e instantaneamente recompensador. Para os brinquedos, a dor não vem apenas da competição por atenção, mas da constatação de que o mundo mudou sem que eles percebessem. Pela primeira vez na franquia, o medo de serem substituídos não está ligado ao surgimento de um brinquedo mais moderno, como aconteceu com Buzz no filme original, mas à possibilidade de que as próprias brincadeiras tenham deixado de ser o centro da experiência infantil.
A decisão de colocar Jessie no centro da narrativa se revela uma das escolhas mais acertadas do filme. Embora Woody continue desempenhando um papel importante na história, sua função agora é a de alguém que observa e aconselha, não mais a de quem carrega o peso emocional da trama. Esse espaço permite que Jessie assuma um protagonismo que a franquia há muito tempo parecia lhe dever. O roteiro se beneficia especialmente da bagagem emocional da personagem, utilizando experiências já conhecidas pelo público para dar profundidade aos conflitos atuais. Diante do afastamento gradual de Bonnie, a reação de Jessie não nasce apenas da preocupação com o futuro dos brinquedos, mas de feridas que nunca cicatrizaram completamente. Joan Cusack traduz essa vulnerabilidade com sensibilidade, conferindo humanidade a uma personagem que, mesmo em meio a aventuras e situações cômicas, permanece guiada pelo temor de reviver uma dor que conhece bem demais.
O aspecto mais interessante de “Toy Story 5” está na forma como aborda essa discussão sem recorrer ao discurso fácil de demonizar a tecnologia. Andrew Stanton entende que dispositivos como o Lilypad não exercem fascínio sobre as crianças por acaso. Eles oferecem entretenimento imediato, respostas instantâneas e uma sensação constante de companhia. O filme reconhece esse apelo, mas também questiona o que pode ser perdido quando essas experiências substituem formas mais criativas de interação. A preocupação não está na existência da tecnologia em si, mas no espaço que ela passa a ocupar. À medida que Bonnie se fecha cada vez mais em sua relação com o Lilypad, o longa sugere que algo essencial da infância começa a ficar para trás: a capacidade de inventar mundos, criar histórias próprias e enfrentar a vulnerabilidade necessária para construir amizades reais. É uma observação madura, que transforma um conflito entre brinquedos e uma tela em uma reflexão mais ampla sobre a maneira como nos conectamos uns com os outros.
É justamente essa camada temática que faz com que “Toy Story 5” encontre uma identidade mais clara do que seu antecessor. Enquanto outros capítulos da franquia se concentravam principalmente no medo de crescer ou de ser deixado para trás, este volta seu olhar para uma transformação cultural que afeta a própria natureza da infância. Os brinquedos não estão apenas disputando a atenção de Bonnie; eles representam uma forma de descoberta baseada na imaginação, na criatividade e na interação humana. Quando essa experiência passa a dividir espaço com tecnologias cada vez mais envolventes, a questão deixa de ser quem vencerá essa disputa e passa a ser como essas mudanças alteram a maneira como as crianças enxergam o mundo ao seu redor.
O roteiro demonstra sensibilidade ao reconhecer que a infância nunca permanece igual. Novos hábitos surgem, novas ferramentas ganham importância e cada geração constrói suas próprias referências afetivas. O que torna o filme tocante é a recusa em tratar essa evolução como uma tragédia inevitável. Em vez disso, Andrew Stanton procura mostrar que adaptação e permanência podem coexistir. Afinal, embora os brinquedos precisem encontrar um novo lugar em um mundo dominado por telas, os sentimentos que sempre estiveram no coração da franquia permanecem os mesmos. A lealdade, o afeto e os vínculos construídos ao longo do tempo continuam tendo valor, mesmo quando tudo ao redor parece mudar. É uma conclusão coerente com o espírito da série: os mundos da infância se transformam, mas as amizades que ajudam a construí-los deixam marcas que sobrevivem ao passar dos anos.
Apesar do peso de seus temas, “Toy Story 5” nunca perde de vista seu lado mais divertido. O ritmo demora um pouco para se estabelecer nos momentos iniciais, enquanto o roteiro organiza suas peças e apresenta seus conflitos centrais, mas a narrativa ganha força conforme avança. Boa parte desse mérito vem do carisma do elenco de apoio, que continua tornando agradável a companhia desses personagens mesmo quando vários deles recebem menos tempo de tela. Buzz Lightyear volta a ter uma participação mais significativa e rende algumas das situações mais engraçadas do filme, especialmente quando a trama brinca com versões mais modernas do personagem. Já Forky (Tony Hale) permanece uma presença cômica eficiente, provando mais uma vez que sua visão peculiar do mundo continua sendo uma das adições mais inspiradas desta fase da franquia.
Entre as novidades apresentadas pelo filme, algumas se destacam rapidamente pela personalidade e pela forma como ampliam o universo da franquia. Atlas (Craig Robinson), um hipopótamo equipado com sistema de navegação, e Snappy (Shelby Rabara), uma câmera de brinquedo cheia de entusiasmo, cumprem bem a função de trazer energia renovada à história. No entanto, quem realmente deixa sua marca é Smarty Pants (Conan O’Brien). Resgatado de uma linha de brinquedos educativos já esquecida pelo tempo, o personagem surge como uma combinação irresistível de autoconfiança exagerada e frustração constante. O’Brien encontra exatamente o tom necessário para transformá-lo em um dos grandes alívios cômicos do filme, extraindo humor de cada fala e fazendo com que mesmo suas aparições mais breves se tornem memoráveis.
Embora a narrativa perca parte de seu impulso no trecho intermediário, repetindo alguns conflitos e demorando mais do que deveria para desenvolver suas ideias, o filme encontra uma recuperação impressionante em sua reta final. O que poderia ter se transformado em um discurso simplista sobre os perigos da tecnologia evolui para algo muito mais interessante e maduro. Quando os acontecimentos começam a se acumular e Bonnie se vê cada vez mais distante de Blaze Manoukian, os personagens são forçados a buscar soluções em conjunto, inclusive com a participação decisiva de Lily. O resultado é um clímax que combina humor, aventura e emoção com a habilidade que consagrou a franquia, transformando o conflito central em uma celebração da empatia e da importância dos vínculos humanos. É nesse momento que “Toy Story 5” finalmente alcança todo o potencial de suas ideias e entrega a recompensa emocional que sua história vinha prometendo desde o início.
A força desse desfecho acaba evidenciando algumas das oscilações que surgem ao longo da jornada, mas não a ponto de comprometer o resultado final. Mesmo sem alcançar a consistência narrativa ou o impacto emocional de “Toy Story 3”, o novo capítulo demonstra uma compreensão clara do motivo pelo qual essa franquia ainda merece existir. Andrew Stanton encontra uma questão genuinamente contemporânea para explorar e a utiliza para renovar personagens que poderiam facilmente parecer presos ao passado. Entre momentos de humor afiado, reflexões pertinentes sobre a infância moderna e um núcleo emocional que continua funcionando, “Toy Story 5” se estabelece como uma continuação mais convincente do que seu antecessor, provando que ainda há espaço para novas histórias quando elas têm algo relevante a dizer sobre o mundo em que são contadas.